Histórias de Pedro Barros

Nascido na Ilha de São Vicente em 1944

Filho de José Henrique e Francisca Barros

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A vida, o tempo

 

Meus pais me criaram aqui.

Trabalhavam de roça.

Pobres, não tinham condição.

Mas graças a Deus criaram todos os sete filhos,

com muitos esforços.

Eu continuo morando aqui todo o tempo.

Gosto daqui porque foi onde eu nasci e me criei.

Eu amo essa Ilha.

Espero que algum dia eu tenha oportunidade

de conseguir algum benefício,

uma condição financeira melhor.

Botei o nome da minha chácara,

“Deus é a Verdade”.

Tenho os meus plantios.

Está tudo começando produzir,

e assim vai.

O alimento daqui é peixe e sempre algum franguinho.

E a gente vai passando o tempo.

Eu nunca paro de plantar.

Tenho minha canoa pra viajar pra Araguatins,

fazer as compras da semana.

A vida é essa.

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Aprendendo a nadar

 

Todas as criações meus pais criavam aqui.

Eu era pequeno e não sabia nadar.

Aí eu ia lá pra beira do rio,

ficava junto com os patos,

querendo nadar.

Mas quando meu pai me via,

me pegava e era uma taca.

Aí ele dizia:

“isso é pra nunca mais você ir pra dentro do rio,

porque a água não tem cabelo.

Tenha cuidado senão vai pegar outra surra”.

E aí eu não ia.

Meu irmão nunca aprendeu a nadar

porque tinha medo de taca.

Mas eu aprendi um pouco.

 

 

 

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Remando e pescando

Eu fui aprender a remar com meu irmão Salvador.

Ele diz: “rapaz, tu tem que aprender a remar,

pra quando nós ir pescar

pra eu poder bater caniço”.

Bater caniço nas frutas que peixe come.

Batia com a isca e o peixe agarrava.

Pegava mais era pacu.

Eu ia mais ele pra pegar o jacumã,

que é governar a canoa.

Eu ia governando a canoa e ele na frente.

Aí pegava peixe pra fazer isca,

botar nos anzolão,

assim à base de uns três, quatro metros.

Aí amarrava naquelas pontas de rama.

Quando era de noite nós ia olhar

e tinha Pirarara,

tinha Filhote,

Dourada…

Aí jogava o arpão,

pra ficar mais seguro,

aí matava,

e no outro dia

ele ia pra Araguatins pra vender.

Comecei com quinze anos.

 

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Meio mundo de água

Uma vez nós fomos pra Araguatins,

e quando nós vinha descendo, de noite já,

vinha o Henrique, meu primo, numa canoa, e nós na outra.

Aí surgiu aquele mamulho de água muito grande

e saiu atrás da canoa, e nós rememo pra beira.

O Henrique vinha sozinho na canoa e o bicho vinha atrás,

naquele meio mundo de água, e o banzeiro.

A valença é que ele era muito remador.

Aí remando, remando, e o bicho atrás.

Aí ele encostou a canoa, e nós encostemo também.

E ficou aquele mundo de água

e nós não soubemos o que era.

Podia ser até um jacaré,

mas nós não descobrimos que bicho era.

Sei que passou meio mundo de água.

 

 

 

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Sexta-feira da Paixão

Na Sexta-feira da Paixão a pessoa não pode caçar.

Aí o cara teimou e foi caçar.

O pessoal falando: “rapaz, não vai, que você vai ver visão”.

E ele falou: “não, eu vou”.

E ele foi.

A primeira coisa que ele encontrou foi um bando de guariba.

Guariba você sabe, é um macaco, um macacão.

Aí ele atirou numa macaca.

E a macaca tava parida.

Aí ela disse assim:

“Margarida, pega a Dida,

que ela está toda ferida,

no meio de tanta mulher solteira

foram atirar numa parida!

Mané Inácio,

vamo embora em cima,

vamo embora embaixo,

vamo embora ver

se o cabra é macho.

Federico, tô aqui mas não fico”.

Aí o macacão saiu atrás do cara e o cara cai aqui e acolá e aí cai na água.

Ele quase atravessa o rio nadando.

A valença é que a guariba não saiu atrás dele.

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Os peixes

 

Os peixes que existiam, que nós pegávamos muito,

eram o Pirarucu, que é o Pirosca,

o Filhote, a Dourada, Pirarara.

O Pirarara ainda existe,

mas o Filhote, a Dourada, Pacu Manteiga

e o Pirarucu estão em extinção.

E tem a Caranha, que também ainda existe,

mais de criatório.

De primeiro a gente pegava esses Tambaqui,

era no rio, hoje não pega mais,

pega algum que escapa dos criatórios.

Aruanã tem pouca, mas ainda existe.

E tem a Traíra, a Pacu Branca, a Pescada.

A Curuvina ainda tem muita.

Os peixes grandes é que mais desapareceram.

Ainda existem Pacu, Barbado.

O Mandi, o Cará, o Cari, ainda têm muito.

 

 

 

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O Olho da Palmeira

Eu aprendi a fazer o cofo com a minha mãe.

Ela me ensinou quando eu tinha uns doze anos.

O material que se usa é o olho da palha.

Tira o olho da palha, abre ele, bota pra pegar um solzinho

pra murchar, pra não quebrar muito a palha.

Aí você faz o cofo,

faz o abano,

faz a esteira,

faz o balaio,

faz a cofa,

que é de galinha botar.

Tudo do olho da palmeira.

Eu já ensinei pra muita gente

Poucos ainda fazem esse trabalho.

Tem uns que levam pra vender na feira.

E vende tudo.

Meu pai fazia o paneiro pra empaneirar a farinha.

 

 

 

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Meu pai

Meu pai tinha um reboque que ele botava

arroz, farinha, tapioca, tudo ele botava dentro

pra ir vender em Marabá.

Era reboque que chamava, de voga.

Ele vendia e depois comprava tudo de mantimento.

Vendia quase tudo nesses beiradão de rio

quando ele ia subindo.

Chegava já em casa com pouca coisa.

Nesse tempo quase não tinha navegação de barco.

 

 

 

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Motores

O primeiro motor que teve aqui,

eles chamavam de Godzilla.

Depois desse Godzilla veio o Penta.

O Penta era um motor já mais moderno.

Depois veio esse motor a diesel,

esses barcos grandes,

que fazem a linha lá de São Raimundo pra Araguatins.

Hoje já estão acabando porque não aguentam a reforma.

São barcos muito caros.

É a madeira, é a mão-de-obra,

tudo fica caro.

 

 

 

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Plantação

A primeira planta que eu plantei aqui foi o Pequi.

Depois eu comecei a plantar o Coco da Praia.

Depois eu comecei a plantar Laranja.

Plantei Caju, plantei Manga, plantei Cupu.

Venho plantando esse Pau Preto.

Plantei Banana, Mandioca.

Tem a Tamarina, tem o Buriti, tem o Murici,

tem a Ingá de Metro,

tem o Abacate,

tem a Jaca,

tem a Groselha,

tem o Mamão.

Tem diversas plantas.

Eu gosto do rio,

mas também gosto muito das minhas plantas.

 

 

 

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Festas de antigamente

Meus pais festejavam

Nossa Senhora do Rosário, São Lázaro, São José.

E todo ano eram uns festejos bonitos.

Aí se matava um gado pra essas festas,

porque a gente tinha gado curraleiro aqui.

Matava galinha, matava porco.

Tinha muita banana.

Vinha gente lá do Pará pra cá,

os cumpádi deles, os amigos.

Muita gente vinha de Araguatins,

do São Raimundo, era gente demais.

E aí dava comida pra esse pessoal todo.

O meu irmão Juarez, que era o que gostava mais de brincadeira,

fazia às vezes duas latadas,

uma no fundo da casa, outra na frente.

No fundo era pras pessoas que queriam dançar a Suça,

e aqueles que queriam dançar o Forró era na parte da frente.

Isso era uma festona.

Coisa bonita.

A noite todinha gente dançando.

 

 

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Aparição do Nêgo D’água

 

Tia Agostinha viu o Nêgo D’água.

Ela estava banhando na praia do São Raimundo,

do lado da beira mesmo,

aí quando ela viu,

aquele neguinho saiu

com os pés de pato.

Aí ela falou pro povo,

e o meu pai disse:

“ah, pois é o Nêgo D’água mesmo,

tem os pés de pato!”

 

 

 

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A voz que espantou o caçador

O meu cunhado gostava muito de caçar,

aqui na Ilha mesmo.

Quando foi um dia, ele foi pra espera,

aí chegou lá e diz que uma voz

– sacudiu primeiro o pau - falou pra ele:

“moço, vai-se embora.”

Aí ele ficou.

Depois ele foi de novo e a voz tornou a dizer:

“rapaz, eu já não disse pra você ir embora?”

Aí ele continuou lá.

Então a voz disse:

“moço, eu já falei pra você ir embora,

você quer descer ou quer que eu suba?”

Aí ele ficou sem ação,

saiu da espera deixando a espingarda,

deixando tudo e quanto e foi pra casa.

Quando chegou lá, já foi doendo a cabeça.

Passou quase um mês doente.

Essa voz ninguém sabe de onde veio.

 

 

 

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O mistério da canoa desaparecida

O meu pai tinha canoa muito grande.

Ele remava quase todo dia ali pro São Raimundo

porque aqui a saúba comia quase tudo a rama da mandioca,

e o cumpádi dele, que é o Tio Zébi,

deu um pedaço de terra pra ele plantar mandioca lá.

Aí ele foi, e quase todo dia atravessava pra lá.

Quando foi um dia a canoa não estava no porto.

Aí ele disse: “meu Deus do céu, a canoa foi embora”.

E aí ele foi ver se conseguia encontrar a canoa.

Quando chegou no porto que ele encostava lá no Pará

- lá tinha um remanso – a canoa tava lá só rodando nesse remanso.

Não saiu do lugar.

Não se sabe como foi isso.

 

 

 

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Assobio de Boto

Aqui tem um Boto que assobia.

A mulher tem medo dele que só.

Quando ela escuta ele vindo, ele assobiando,

logo ela corre de lá da beira do rio pra cá.

E o Boto faz medo mesmo.

Um dia até eu fiquei com medo,

porque eu vi aquele negócio fazer: “uah! Fiuuu”,

e digo: “rapaz, esse que é o Boto que assobia”.

E não é que ele assobiou bem pertinho de mim?

Eu peguei, puxei a linha, botei dentro da canoa e vim embora.

E ele subiu assobiando direto.

Esse Boto eu nunca vi não,

mas o assobio dele eu escutei.

Histórias de Vida da

Comunidade Quilombola 

Ilha de São Vicente no Rio Araguaia