Histórias de Virgílio Barros Rocha

Nascido às margens do rio Araguaia em 1943

Filho de Domingas Barros e Prudêncio Rocha

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Infância

 

Nasci ali no Pará.

Estudava a dois quilômetros distantes de casa.

Eu saía às sete horas pra escola,

chegava de volta às doze horas,

mamãe tinha feito o almoço,

eu pegava e já levava pro meu pai,

almoçava na roça, trabalhando com ele.

Era só nós dois que trabalhava na roça.

Trabalhávamos até seis horas da tarde.

Chegava em casa quando a candeia já estava acesa.

Eu fiz até a quinta série porque a professora sabia ensinar só até aí.

Não me atrapalhei com nenhuma matéria.

Da terceira série em diante,

quando a professora tinha que se ausentar

- nesse tempo tudo era resolvido em Marabá, São João do Araguaia -

ela saía, e quem ficava dando aula era eu.

Ela me entregava a escola e dizia:

“toma, faz de conta que sou eu que está aqui”.

Aí ela viajava despreocupada.

Eu gostava de dar aula.

Os meninos tudo era obediente.

Eu também não era muito agoniado.

Aí funcionava bem.

Vontade de estudar mais eu tinha,

mas a condição era pouca,

que eu tinha que ajudar o veio na roça.

Até achei oportunidade,

mas o veio disse “não, fica aqui mais eu, trabaiá mais eu”,

e eu ficava lá, mais o veio, trabalhando.

A roça era de milho, arroz, mandioca.

Nós não pagava serviço, era nós mesmo que fazia,

do começo até a colheita.

 

 

 

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Pescador

 

Aprendi a pescar por conta.

Tinha minha canoinha, tinha as tralhas,

caniço, tarrafa, rede.

Aí comecei pescando.

Fui um dos fundadores da Colônia de Pescadores.

Pesco até hoje.

Gosto tanto de plantar quanto de pescar.

Na hora que estou de folga vou pescar.

Na hora que tem o serviço, paro a pescaria, vou trabalhar.

Às vezes eu saio de casa e passo oito dias no rio, mariscando dia e noite.

 

 

 

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Plantação

 

Eu gosto de mexer com roça.

Aqui é acanhado porque o Incra liberou

só cinquenta metros de frente pra gente.

Então é só esse pedacinho aqui.

Lá atrás tem uma lagoa grande, sem fim.

O terreno só é da lagoa pra cá.

Aí eu fico roçando essas capoeiras todo ano.

Já estou cansado de roçar capoeira.

Eu planto rama de mandioca,

planto milho,

planto feijão,

planto banana.

Só mesmo pra despesa de casa.

 

 

 

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Burro n´água

 

Eu trabalhava no Marabá arriando castanha.

E uma vez, era inverno, mês de Fevereiro pra Março,

nós chegamos num local onde nenhum de nós tinha ido antes.

Nós éramos três companheiros: eu e dois primos meus.

Chegando lá, o ranchinho tava pouco.

O encarregado do barracão disse:

“agora vocês vão ter que ir na Serra Rica

pegar o rancho, porque acabou o rancho daqui”.

E eram dez quilômetros de lá pra Serra Rica.

Os companheiros nenhum diz que ia.

Um disse, “eu num vou”.

E o outro: “eu também num vou, que diz que o homem lá é valente”.

Eu digo: “não, não é pra brigar não, é buscar o rancho”.

E não teve quem quisesse ir.

O jeito que teve foi eu ir.

Arrumei minha rede, botei num saquinho e disse, “vou lá”.

Nessa hora chega o tropeiro que arriava castanha da mata e pergunta:

“rapaz, onde é que tu vai essa hora?”

E eu digo: “vou pra Serra Rica”.

E ele: “rapaz, demora aí um pouquinho que eu vou arrumar um burro pra tu ir montado”.

E eu: “tá bom”.

Aí ele pegou o burro, botou a cangaia e disse:

“agora tu forra com uma rede e vai montado”.

Peguei, montei e saí.

Cheguei na Serra Rica já era de tardezinha.

O igarapé que atravessava o caminho estava seco todo esse tempo.

Dormi lá, o encarregado era gente muito boa.

Ele disse: “Agora você toma um banho, vamos jantar, tu dorme e depois vai”.

Fomos tomar banho, aí começou assim, um trovãozinho, de vez em quando.

Eu digo: “parece que vai chover”.

E ele: “rapaz, tem rumo de chover”.

Viemos pra dentro de casa, jantemos, aí fiquemos conversando.

Mais tarde começou a chuva.

Chuva a noite todinha.

Chuva que você não podia sair fora.

Amanheceu o dia, a chuva afinou um pouco

e eu disse: “Agora vou indo”.

E ele: “então tá bom, vamos fazer o rancho”.

Ele ajeitou o rancho, peguei tudo, botei no animal, montei e vim.

Eu viajei assim... uns quinhentos metros, e topei na água.

Eu digo: “uai, isso aqui tava levantando poeira, aqui não tem corgo!”.

Mas aí eu entrei, até onde a água bateu na barriga do animal.

E digo: “não tem como ir pra frente não, vou ter que voltar e deixar esse burro”.

Voltei e deixei o burro amarrado lá no seco.

“Vou mesmo é de pé, vou levar só o querosene

- nosso fogão era a querosene -

depois venho buscar os outros trem”.

Saí empurrando a lata de querosene até onde tomei pé.

Onde não dava pé, ia nadando,

nadava um bocado, subia numa árvore, descansava um pouco,

tornava a descer e peitava de novo.

Quando já tinha viajado muito eu gritei

pra ver se os outros companheiros vinham me encontrar, e nada.

Já tava aborrecido, com vontade era de voltar,

mas digo “não, eu tenho que ir pra frente”.

Aí fui, fui, andei bastante, gritei outra vez,

subi numa árvore, gritei de novo.

Daí um pouco assuntei um motor funcionar.

Aí vieram, os companheiros, com o barco a motor funcionando

por onde eu tinha passado no dia anterior levantando poeira!

Chegaram lá onde eu tava:

“rapaz, tu tá no meio d´água?”

Eu digo: “é, e lá, como é que tá?”

E eles: “lá até o barracão a água cobriu,

a castanha que tem é esse pouquinho

que nós aproveitemos,

as outras a água levou tudo.

O pessoal e o encarregado de lá

tão arranchados numa barraquinha dentro da mata”.

Aí embarquemos no motor e fomos em direção

à Serra Rica pra pegar as coisas.

O burro que eu tinha deixado no seco,

o encarregado encontrou ele já dentro d´água,

pegou e levou ele de volta prum lugar seco.

Aí peguemos os trem, o rancho, e voltemos.

Quando chegamos de volta ao castanhal

o encarregado disse:

“agora só vai ter jeito de vocês ir embora quando a água baixar.

Do jeito que está, se vocês meterem a cara, vão ficar perdidos,

nunca mais vão sair”.

Aí nós passemos uns cinco dias lá.

Quando a água baixou foi que nós conseguimos viajar.

 

 

 

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O rio, o sustento

 

A pescaria está fraca em comparação à época em que comecei.

No início você pescava uma semana e era peixe demais.

Hoje, quando você passa uma semana e faz oitenta,

sessenta quilos de peixe, já pegou bastante.

Antes, pegávamos a mesma quantidade em dois dias.

Tinha como melhorar a situação

se desse mais oportunidade pro povo,

pra maneirar a pesca.

Mas essas oportunidades não têm,

aí o sujeito não tem emprego,

tem que apelar mesmo pro rio.

É por isso que tem essa quantidade de mariscador.

É por falta de oportunidade.

Histórias de Vida da

Comunidade Quilombola 

Ilha de São Vicente no Rio Araguaia